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Poder, desumanização e saúde mental: reflexões sobre civilização e identidade no exterior.

  • Foto do escritor: Carolina Huck
    Carolina Huck
  • 12 de fev.
  • 3 min de leitura


Vivemos um tempo em que notícias bárbaras atravessam o cotidiano com uma frequência inquietante. Escândalos, abusos de poder, violência, exploração. Casos como o de Jeffrey Epstein não chocam apenas pelos crimes em si — mas porque expõem algo mais profundo: a fragilidade do nosso pacto civilizatório.

O que nos impede de nos destruir?

Essa foi uma das perguntas centrais de uma conversa recente do projeto Atemporais, em que refletimos sobre autoridade, poder e os limites da civilização.

Este texto é um desdobramento dessa conversa.


O poder não é apenas político — é psíquico

Quando falamos de poder, tendemos a pensar em política, cargos, hierarquias sociais.

Mas, na clínica psicológica, o poder aparece em outra dimensão.

Ele se manifesta como pulsão.Como desejo.Como necessidade de controle.Como dificuldade de lidar com limites.

A pergunta que atravessa a história — e a subjetividade — é:

O poder cria perversão ou apenas amplifica o que já existia?


Do ponto de vista psicológico, o poder raramente cria algo do zero. Ele tende a ampliar traços já presentes: narcisismo, impulsividade, dificuldade empática, fragilidade moral.

Quando não há elaboração interna, o acesso irrestrito ao poder pode funcionar como catalisador de aspectos não integrados da personalidade.


A civilização como contenção

Ao longo da história, criamos estruturas para conter nossa própria violência: leis, instituições, códigos morais e também religiões.

As religiões, por exemplo, podem ser compreendidas como grandes acordos civilizatórios — tentativas simbólicas de organizar o desejo humano e estabelecer limites para que não nos destruíssemos mutuamente.

Mas toda contenção é suficiente?

Ou, em alguns momentos, ela apenas reorganiza a violência sob outras formas?

A história mostra que a camada civilizatória pode ser mais fina do que imaginamos.


Quando o outro deixa de ser humano

Toda violência começa na desumanização.

Primeiro classificamos. Depois hierarquizamos. Em seguida, naturalizamos exclusões.

Quando o outro deixa de ser percebido como sujeito — com dor, história e dignidade — tudo se torna possível.

Os grandes genocídios, as perseguições políticas, os abusos sistêmicos e até as violências cotidianas seguem essa mesma lógica psíquica: reduzir o outro a objeto.

Na clínica, vemos versões mais sutis desse processo:

  • Relações marcadas por manipulação emocional

  • Ambientes de trabalho atravessados por humilhação

  • Dinâmicas familiares onde alguém é sempre o “problema”

A desumanização não começa em larga escala. Ela começa na linguagem. Na forma como nomeamos. Na maneira como excluímos.


O que isso tem a ver com saúde mental?

Tudo.

Especialmente para brasileiros que vivem fora do país, a experiência de desumanização pode aparecer de maneira silenciosa: sentir-se invisível, deslocado, estrangeiro permanente, reduzido a estereótipos.

A exclusão não é apenas social — ela também é psíquica.

Quando alguém internaliza a mensagem de que vale menos, algo da sua própria humanidade começa a se fragilizar. E isso pode se manifestar como:

  • Ansiedade

  • Depressão

  • Sensação de não pertencimento

  • Perda de sentido

  • Isolamento

Na psicoterapia, trabalhamos justamente na reconstrução dessa dignidade interna.


A perspectiva da ACT: integração ao invés de repressão

Na TCC de terceira onda — especialmente na Terapia de Aceitação e Compromisso (ACT) — entendemos que emoções difíceis, impulsos e desejos não desaparecem por repressão.

Eles precisam ser reconhecidos e integrados.

Quando negamos partes da nossa experiência interna, elas tendem a ganhar força nas sombras.

Quando integramos, civilizamos.

A civilização não é apenas um fenômeno social. Ela é também um processo psíquico.

Ser humano é sustentar a tensão entre desejo e limite. Entre impulso e responsabilidade. Entre poder e ética.


Humanizar é um ato político

Humanizar não é ingenuidade.

É escolha ética.

É reconhecer a complexidade do outro.É resistir à simplificação violenta.É sustentar a própria responsabilidade diante do poder — seja ele grande ou pequeno.

O poder amplifica o que já existe. A civilização é uma camada fina. A integração psíquica é um trabalho constante.

A pergunta permanece:

O que sustenta a nossa humanidade?

Talvez a resposta não esteja apenas nas instituições — mas na disposição diária de reconhecer o outro como sujeito.

E de reconhecer, em nós, aquilo que também precisa ser elaborado.

Se você é brasileiro(a) vivendo na Europa ou no Reino Unido e tem sentido que algo da sua identidade, pertencimento ou sentido de vida ficou fragilizado nesse processo, a psicoterapia online pode ser um espaço seguro para elaborar essas questões.

A saúde mental não é apenas ausência de sintomas. É a construção contínua da nossa humanidade.

—Carolina Huck Psicóloga | Psicoterapia online para brasileiros no exterior www.carolinahuck.com

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© 2025 por Psicóloga Carolina Huck  CRP12/10442

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