A consciência como experiência
- Carolina Huck
- 24 de out. de 2025
- 3 min de leitura

A filosofia moderna nos ensinou que a razão é poderosa, mas também limitada. Mesmo com o avanço das ciências e o otimismo iluminista, algo continuava sem resposta: o que é a consciência?
Podemos observá-la? Medir seus efeitos? Ou ela é algo que só pode ser vivido, sentido, experimentado? Essas perguntas ganham novo fôlego no século XX, quando a filosofia se volta novamente para dentro — para a experiência imediata de existir.
👁 Husserl e o nascimento da fenomenologia
O filósofo alemão Edmund Husserl (1859–1938) propõe uma ruptura com as explicações abstratas sobre a mente. Para ele, a consciência não é uma “coisa” que pode ser estudada de fora, como um objeto — ela é atividade viva, o próprio ato de perceber, significar e dar sentido ao mundo.
Husserl cria, então, a Fenomenologia — o estudo das experiências conscientes tal como se manifestam. Seu princípio é simples e profundo: “retornar às coisas mesmas”. Ou seja, suspender julgamentos e olhar o mundo como ele aparece à consciência, sem pressupostos.
Para Husserl, a consciência é sempre intencional: ela está sempre “voltada para algo”. Quando penso, percebo ou recordo, minha mente está direcionada a um objeto — real, imaginado ou lembrado. Assim, a consciência é a ponte entre o sujeito e o mundo.
A fenomenologia não busca respostas definitivas sobre o que é a mente, mas nos ensina a descrever a experiência de estar vivo e consciente.
🌿 Heidegger: o ser como projeto
Um dos alunos mais brilhantes de Husserl, Martin Heidegger (1889–1976), amplia a fenomenologia em uma nova direção. Ele propõe que o homem não é um ser que “tem” uma mente, mas um ser que existe no mundo — um ser-aí (Dasein).
Para Heidegger, a consciência não é um espelho interno que reflete o mundo, mas uma presença no mundo, uma forma de ser. O ser humano é um projeto em constante construção — um vir a ser.
Essa visão muda tudo:
A mente deixa de ser um lugar interno e passa a ser um modo de existir;
A subjetividade torna-se inseparável do contexto, do tempo e das relações;
E a pergunta “quem sou eu?” transforma-se em “como estou sendo?”.
A filosofia existencial, nascida dessa perspectiva, convida o homem a reconhecer sua liberdade, mas também sua responsabilidade diante da própria vida.
💭 A virada existencial e o nascimento de uma nova psicologia
A partir dessas ideias, nasce uma geração de pensadores e psicólogos que buscam compreender o humano não como um sistema de engrenagens mentais, mas como um ser que sente, escolhe e sofre. Surge, assim, a psicologia existencial e, mais tarde, a fenomenologia na clínica — abordagens que colocam a experiência vivida no centro do processo terapêutico.
A consciência passa a ser entendida não apenas como racionalidade, mas também como vivência, corpo e emoção. O ser humano é um ser de significados — e esses significados são tecidos na relação com o mundo e com os outros.
Essa mudança de olhar inaugura um modo mais humano de pensar a mente. Não mais uma “coisa” a ser medida, mas uma presença viva, única e em constante transformação.
🌌 A mente que observa a si mesma
Pensar a mente continua sendo um paradoxo: é a mente tentando compreender a própria mente. Esse desafio coloca em questão a objetividade científica: é possível estudar algo que só existe na experiência subjetiva?
A fenomenologia nos lembra que talvez a resposta não esteja em resolver o enigma, mas em habitar o mistério — reconhecendo a consciência como um campo de experiências, e não apenas como um objeto de análise.
Afinal, a consciência não é apenas o que pensamos — é aquilo que nos permite pensar.
✨ Para refletir
Quando você presta atenção em si mesmo, o que realmente observa: pensamentos, sentimentos ou presenças sutis?
É possível compreender a mente sem incluir o corpo e as emoções?
O que muda quando deixamos de perguntar “o que é a mente?” e passamos a perguntar “como é estar consciente?”
Referências bibliográficas
DEPRAZ, Natalie. Compreendendo Husserl. Petrópolis: Editora Vozes, 2021.
HEIDEGGER, Martin. Ser e tempo: partes I e II. Tradução de Márcia S. C. Schuback. Petrópolis: Vozes, 2002.
FIGUEIREDO, L. C. M.; SANTI, P. L. R. de. Psicologia: uma (nova) introdução. Uma visão histórica da psicologia como ciência. São Paulo: EDUC, 2002.
COLLINSON, Diane. 50 grandes filósofos. São Paulo: Contexto, 2006.
CHALMERS, David J. Filosofia da mente: leituras clássicas e contemporâneas. São Paulo: Loyola, 2002.









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