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Filosofia da mente

  • Foto do escritor: Carolina Huck
    Carolina Huck
  • 24 de out. de 2025
  • 3 min de leitura
Repensando o que é ser consciente
Repensando o que é ser consciente

Por séculos, a filosofia buscou compreender a alma, a razão e a consciência.Mas foi apenas no século XX que essas reflexões receberam um nome próprio: Filosofia da Mente.

Essa área, nascida do diálogo entre a filosofia, a psicologia e as ciências naturais, busca responder perguntas que continuam desafiando a humanidade: O que é a mente? Ela é diferente do cérebro? Como os pensamentos e sentimentos surgem da matéria? E o que, afinal, significa estar consciente?


O nascimento de uma nova disciplina

O termo Filosofia da Mente foi cunhado pelo filósofo inglês Gilbert Ryle, em 1949, com a publicação de O Conceito de Mente. Ryle reagia ao dualismo cartesiano — aquela antiga separação entre corpo e alma — que, segundo ele, era um erro categorial: uma confusão entre coisas de natureza diferente.

Para Ryle, a mente não é uma substância separada, mas um modo de agir e se comportar. Quando falamos de “inteligência”, “vontade” ou “emoções”, estamos nos referindo a disposições e relações, e não a entidades ocultas dentro da cabeça. Em outras palavras: a mente é o que fazemos, não algo que temos.

Essa visão inspirou debates que continuam até hoje — sobre consciência, identidade pessoal, livre-arbítrio e até inteligência artificial.


A mente e o corpo — um problema ainda em aberto

Desde Descartes, o chamado problema mente-corpo é um dos temas mais complexos da filosofia. Se a mente é imaterial e o corpo é físico, como eles interagem?

Ao longo do século XX, surgiram novas tentativas de resolver essa questão:

  • Os materialistas argumentam que a mente é produto do cérebro, e que pensamentos e emoções são, em última análise, processos neuroquímicos.

  • Já os funcionalistas afirmam que o importante não é a substância, mas a função — ou seja, a maneira como os processos mentais operam, independentemente da base física que os sustenta.

Com essa virada, a Filosofia da Mente aproximou-se das ciências cognitivas e da neurociência, mas sem perder seu caráter reflexivo.


Identidade pessoal: o que faz de mim “eu”?

Outro grande tema da Filosofia da Mente é o da identidade pessoal — a questão do que nos torna os mesmos ao longo do tempo.

Sou o mesmo de ontem porque tenho o mesmo corpo? Ou porque me lembro do que vivi?Se minhas memórias fossem apagadas, eu ainda seria eu?

O filósofo John Locke defendeu que a memória é o que mantém a continuidade do “eu”. Já pensadores posteriores ampliaram a discussão: talvez nossa identidade seja uma combinação de corpo, consciência e história — uma narrativa em constante reescrita.

Essa questão é muitas vezes ilustrada pela parábola do Barco de Teseu: se todas as tábuas de um barco forem substituídas ao longo do tempo, ele ainda é o mesmo barco? E, por analogia, se todas as células do nosso corpo se renovam, o que permanece sendo nós?


A mente no século da tecnologia

A Filosofia da Mente ganhou novo impulso com o avanço da inteligência artificial.Em 1950, o matemático Alan Turing propôs o famoso Teste de Turing, questionando: se uma máquina pode se comportar como um ser humano, deveríamos considerá-la inteligente?

Essa pergunta desloca o foco do que é “pensar” para o que é “agir como se pensasse”. Mas será que inteligência é o mesmo que consciência? Uma máquina pode sentir, desejar ou ter experiências subjetivas?

Essas discussões continuam atuais — e cada avanço tecnológico nos obriga a repensar onde termina o humano e onde começa o artificial.


Pensar a mente para compreender o humano

A Filosofia da Mente não oferece respostas definitivas, mas amplia nossas perguntas. Ela nos lembra que compreender o que é a consciência é também compreender o que é ser humano.

No fundo, pensar a mente é um exercício de humildade: aceitar que há em nós algo que pode ser observado, mas também algo que sempre escapa — uma dimensão viva, simbólica e misteriosa, que resiste à explicação total.


✨ Para refletir

  • Você acredita que a mente é algo separado do corpo — ou que somos um sistema único, biológico e simbólico ao mesmo tempo?

  • Sua identidade está na sua memória, no seu corpo ou naquilo que você sente?

  • Uma máquina poderia, um dia, ser realmente consciente — ou apenas simular consciência?


Referências bibliográficas

  • RYLE, Gilbert. O conceito de mente. São Paulo: Martins Fontes, 2009.

  • PLACE, U. T. “A consciência é um processo cerebral?”. British Journal of Psychology, v. 47, n. 1, p. 44–50, 1956.

  • SMART, J. J. C. “Sensações e processos cerebrais”. The Philosophical Review, v. 68, n. 2, p. 141–156, 1959.

  • LOCKE, John. Ensaio acerca do entendimento humano. Tradução de Antônio Aiex. São Paulo: Nova Cultural, 1999.

  • TURING, Alan. “Computing machinery and intelligence”. Mind, v. 59, p. 433–460, 1950.

  • CHALMERS, David J. Filosofia da mente: leituras clássicas e contemporâneas. São Paulo: Loyola, 2002.

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© 2025 por Psicóloga Carolina Huck  CRP12/10442

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