A mente na filosofia moderna
- Carolina Huck
- 23 de out. de 2025
- 3 min de leitura
Atualizado: 24 de out. de 2025

Com o passar dos séculos, a filosofia continuou tentando responder à mesma pergunta que inquietava Sócrates: quem somos nós e o que é a mente humana? Mas agora, o cenário já era outro — o mundo vivia o Renascimento, as descobertas científicas se multiplicavam e a razão ganhava um novo papel: explicar o universo e o próprio homem.
É nesse contexto que nasce a Filosofia Moderna, um período em que os pensadores começam a se perguntar não apenas o que existe, mas como podemos conhecer o que existe. E dessa busca nascerão duas grandes correntes que moldaram nossa forma de pensar: o racionalismo e o empirismo.
🧠 Descartes: “Penso, logo existo”
O filósofo francês René Descartes (1596–1650) inaugura o racionalismo moderno. Para ele, o conhecimento verdadeiro não pode depender dos sentidos — que podem enganar —, mas deve nascer da razão, da capacidade de pensar.
A célebre frase “Penso, logo existo” resume sua visão: a mente é a essência do ser humano, e a consciência de pensar é a única certeza indiscutível.
Com Descartes, surge a famosa separação entre mente e corpo. Esse dualismo cartesiano influenciou profundamente a filosofia e a ciência, mas também abriu uma ferida: se mente e corpo são coisas distintas, como se relacionam?
👁 Locke e Hume: o conhecimento vem da experiência
Em reação a essa visão racionalista, filósofos britânicos como John Locke e David Hume defenderam o empirismo — a ideia de que todo o conhecimento nasce da experiência.
Para Locke (1632–1704), a mente humana ao nascer é como uma tábua rasa. Tudo o que sabemos é resultado daquilo que vivemos, percebemos e recordamos. A memória torna-se, então, a base da identidade pessoal: sou eu mesmo porque posso lembrar quem fui.
Já David Hume (1711–1776) leva essa ideia ainda mais longe. Para ele, não existe um “eu” fixo, mas uma sucessão de percepções — pensamentos, sensações, lembranças — que se organizam pela repetição e pelo hábito. O mundo, assim como o sujeito, é uma construção da mente a partir da experiência sensível.
Hume nos convida a pensar: e se o que chamamos de mente for apenas o fluxo das percepções?
⚖️ Kant: razão e experiência reconciliadas
No século XVIII, o filósofo alemão Immanuel Kant (1724–1804) tenta superar essa disputa entre racionalistas e empiristas. Em sua obra monumental, Crítica da Razão Pura, Kant pergunta: “O que podemos realmente conhecer?”
Para ele, todo o conhecimento começa com a experiência, mas é organizado pela razão. A mente não é uma tábua vazia, nem uma entidade pura — é uma estrutura ativa que molda a experiência através de categorias, como tempo, espaço e causalidade.
Assim, o ser humano não conhece as “coisas em si”, mas apenas os fenômenos, isto é, aquilo que aparece à sua consciência. Há, portanto, um limite essencial ao conhecimento humano: nossa mente não capta a realidade em sua totalidade, apenas a interpreta.
Kant também se preocupa com a moral. Ele acredita que existe uma lei racional que orienta as ações humanas — o imperativo categórico —, um princípio ético universal que deve guiar nossas escolhas.
Em outras palavras: mesmo que não possamos conhecer tudo, podemos agir com razão e consciência moral.
🌙 O nascimento da subjetividade moderna
Entre Descartes e Kant, nasce um novo modo de entender o ser humano: o sujeito moderno, autônomo, racional, consciente de si e responsável por suas escolhas. A mente deixa de ser apenas o lugar das ideias e torna-se o centro da identidade e da moralidade humanas.
Mas junto com essa nova liberdade, vem também a solidão: se a mente é o centro de tudo, será que o mundo é apenas uma projeção de nós mesmos?
Essa pergunta ecoará até a filosofia contemporânea — e também na Psicologia, que, a partir do século XIX, passará a investigar cientificamente essa consciência que nos define.
✨ Para refletir
Você acredita que existe uma separação entre corpo e mente — ou que somos uma unidade inseparável?
Suas experiências moldam quem você é, ou há algo em você que permanece o mesmo, apesar do tempo?
Há limites para o que a razão pode compreender sobre o ser humano?
Referências bibliográficas
DESCARTES, René. Discurso do método; Meditações; Paixões da alma; Cartas. São Paulo: Abril Cultural, 1973.
LOCKE, John. Ensaio acerca do entendimento humano. Tradução de Antônio Aiex. São Paulo: Nova Cultural, 1999.
HUME, David. Tratado da natureza humana. 2. ed. São Paulo: Editora UNESP, 2009.
KANT, Immanuel. Crítica da razão pura. São Paulo: Edipro, 2020.
COLLINSON, Diane. 50 grandes filósofos. São Paulo: Contexto, 2006.
FIGUEIREDO, L. C. M.; SANTI, P. L. R. de. Psicologia: uma (nova) introdução. Uma visão histórica da psicologia como ciência. São Paulo: EDUC, 2002.









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