O nascimento da psicologia científica
- Carolina Huck
- 24 de out. de 2025
- 3 min de leitura

Durante séculos, a alma foi um tema da filosofia, da arte e da religião — um mistério que se pensava, sentia e venerava. Mas no final do século XIX, algo mudou: a alma passou a ser observada, medida e experimentada.
A Psicologia, que até então caminhava de mãos dadas com a Filosofia, deu um passo inédito — tornou-se ciência. E com isso, o modo como compreendemos a mente humana nunca mais foi o mesmo.
O primeiro laboratório da mente
Em 1879, na cidade de Leipzig, na Alemanha, o fisiologista Wilhelm Wundt (1832–1920) fundou o primeiro Laboratório de Psicologia Experimental.Ali nascia oficialmente a Psicologia como ciência autônoma.
Wundt acreditava que o objeto de estudo da nova disciplina deveria ser a experiência consciente imediata — aquilo que sentimos e percebemos no instante em que acontece. Sua proposta era investigar a mente de forma sistemática, dividindo-a em elementos básicos, como sensações e sentimentos, e observando como eles se combinam para formar a experiência.
A consciência, antes tema de poetas e filósofos, agora era colocada sob o microscópio.
Freud e a descoberta do inconsciente
Enquanto Wundt estudava os processos conscientes, outro pensador revolucionava a forma de entender a mente humana: Sigmund Freud (1856–1939).
Freud percebeu que a maior parte do que sentimos e fazemos não é guiada pela razão, mas por forças internas inconscientes. Ele propôs um modelo de mente dividido em três instâncias:
Id — os impulsos e desejos primitivos;
Ego — o mediador entre os impulsos e a realidade;
Superego — a instância moral, que representa as normas e valores.
A psicanálise nasceu dessa visão: a ideia de que a mente humana é um território em camadas, onde o passado, os desejos e os conflitos continuam atuando silenciosamente.
Freud devolve à Psicologia algo que o experimentalismo havia deixado de lado — a profundidade da alma humana.
Behaviorismo: a mente que não se vê
Nas primeiras décadas do século XX, a Psicologia buscava se firmar como ciência empírica. O problema é que a “mente” era difícil de observar diretamente. Como, afinal, medir pensamentos e sentimentos?
Diante disso, surge o Behaviorismo — uma corrente que propôs uma solução radical: ignorar a mente e estudar apenas o comportamento observável.
Para autores como John B. Watson e B. F. Skinner, a Psicologia deveria estudar as relações entre estímulos e respostas, e não especular sobre processos internos. Assim, a mente deixa de ser o centro do estudo e dá lugar ao comportamento, que pode ser medido, controlado e previsto.
O behaviorismo consolidou a Psicologia como ciência empírica, mas também a afastou de suas raízes filosóficas. O ser humano passou a ser visto quase como uma máquina de respostas — um sistema condicionado pelo ambiente.
A revolução cognitiva
Nos anos 1950 e 1960, com o avanço da computação e das neurociências, a Psicologia volta a se interessar pelo que acontece dentro da mente. Surge então o Cognitivismo, que compara o cérebro humano a um processador de informações.
Os psicólogos cognitivistas, como Jean Piaget, Jerome Bruner e Ulric Neisser, estudam os processos mentais: percepção, memória, linguagem, atenção, raciocínio e tomada de decisão. A mente volta a ser protagonista, mas agora com ferramentas científicas para investigar seus mecanismos.
Essa revolução marca o início da Ciência Cognitiva, uma ponte entre Psicologia, Filosofia, Linguística, Computação e Neurociência — um retorno à interdisciplinaridade que Sócrates e Aristóteles certamente reconheceriam.
A mente entre a ciência e a subjetividade
Da introspecção de Wundt ao inconsciente de Freud, do comportamento observável de Skinner às metáforas computacionais do Cognitivismo, a Psicologia atravessou diferentes tentativas de compreender a mente.
E, ainda assim, o mistério permanece. A mente é apenas um conjunto de processos biológicos? Ou é algo que transborda o corpo e se expressa na linguagem, nas emoções, nos sonhos e nos vínculos?
Talvez, entre laboratórios e consultórios, a Psicologia contemporânea tenha redescoberto algo essencial: que compreender o ser humano exige tanto o rigor da ciência quanto a sensibilidade da filosofia.
✨ Para refletir
Você acha que é possível compreender a mente apenas por meio da observação científica?
O que é mais verdadeiro: o que sentimos ou o que conseguimos medir?
O autoconhecimento é um experimento ou uma experiência?
Referências bibliográficas
WUNDT, Wilhelm. Princípios da psicologia fisiológica. Leipzig: Wilhelm Engelmann, 1874.
FREUD, Sigmund. O ego e o id. Rio de Janeiro: Imago, 1976.
WATSON, John B. Psychology as the behaviorist views it. Psychological Review, v. 20, n. 2, 1913.
SKINNER, Burrhus F. Ciência e comportamento humano. São Paulo: Martins Fontes, 2003.
PIAGET, Jean. A construção do real na criança. Rio de Janeiro: Zahar, 1970.
FIGUEIREDO, L. C. M.; SANTI, P. L. R. de. Psicologia: uma (nova) introdução. Uma visão histórica da psicologia como ciência. São Paulo: EDUC, 2002.
COLLINSON, Diane. 50 grandes filósofos. São Paulo: Contexto, 2006.









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